
Os juízes de primeira instância e os tribunais não podem deixar de
cumprir as resoluções do Conselho Nacional de Justiça, que tem
competência absoluta estabelecida pela Emenda Constitucional 45. A
afirmação, que tem provocado discussão no Judiciário, é do
conselheiro Marcelo
Rossi Nobre. Para ele, “o constituinte deu competência
absoluta ao CNJ, é o órgão que decide e dá as diretrizes
administrativas para o Judiciário nacional e assim deve ser
cumprido”.
Representante da Câmara dos Deputados, Marcelo Nobre ingressou no
CNJ em março de 2008 e seu mandato vai até o próximo dia 26 de
março. Foi escolhido por meio de voto secreto e recebeu 70% dos
votos dos 513 deputados federais. Sua participação foi a convite do
presidente da Câmara à época, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), e
de vários lideres partidários, inclusive do PMDB, Michael Temer,
atual presidente, que o convidou para continuar no Conselho. “Não
inventei a minha candidatura, foi um convite e acho que não tem
outra forma de se chegar pela maior base eleitoral no CNJ, que soma
mais que o dobro da base de todos os outros conselheiros”, disse.
Marcelo Nobre é advogado há 15 anos, pós-graduado em Direito
Societário pela Escola de Direito da Faculdade Getúlio Vargas. Foi
estagiário por um ano no escritório de advocacia de seu pai, o
ex-deputado federal Freitas Nobre, que foi o mais intransigente
defensor da liberdade de expressão no auge da ditadura militar, como
integrante da ala “autêntica” do MDB, à época em que o partido era
uma confederação de tendências políticas agrupadas na oposição ao
regime militar. Freitas Nobre morreu em 1990.
O filho, Marcelo Nobre, formou-se em 1995, assumiu e ampliou a
empresa do pai, que há 62 anos é instalada em São Paulo com o mesmo
número de telefone. “Política é destino e o destino ainda não me
chamou”, disse Marcelo Nobre sobre seguir a carreira política do
pai, que foi o vereador proporcionalmente mais votado na história de
São Paulo. “Confesso que não descarto essa hipótese, porque eu não
luto contra o destino. Eu jamais imaginava estar no CNJ e estou. É
destino”, disse.
Entre a segunda e a terceira composição do CNJ, Marcelo Nobre ficou
durante 60 dias como único conselheiro, além do presidente Gilmar
Mendes (STF) e do corregedor, ministro Gilson Dipp (STJ). Ele havia
entrado dois meses após a segunda formação do Conselho e seu mandato
se estendeu, tendo trabalhado sozinho. “O presidente ficou com as
atribuições da presidência, o corregedor com as suas atribuições e
eu fiquei sozinho com as atribuições de todos os conselheiros, tudo
vinha para mim”, contou o conselheiro, que se entusiasma com a
atuação do CNJ.
Na semana passada, o CNJ afastou onze magistrados, dez da cúpula do
Tribunal de Justiça de Mato Grosso e um do Tribunal de Justiça do
Amazonas. Em entrevista à revista Consultor
Jurídico, Marcelo Nobre disse que a decisão do CNJ não
significa uma fase de “caça às bruxas” no Judiciário, mas garante
que o órgão “vai continuar levantando todos os aspectos dos
tribunais, tanto negativos quanto positivos. Se nos negativos se
apurar desvios, condutas incompatíveis com o exercício da função,
não há outra coisa a fazer, senão aplicar a lei”, disse.
O conselheiro revela que ficou chocado com o fato, mas entende que o
CNJ “não pode fraquejar. Quando a gente vê, pela provas, que alguém
que está no serviço público não tem a menor condição de prestar o
serviço público, nós temos que agir”, afirmou.
Leia a entrevista:
ConJur — O que o senhor diz da sua experiência no CNJ?
Marcelo Rossi Nobre — Eu
adoro participar do CNJ, que é um órgão extraordinário. Temos que
aplaudir aqueles que pensaram a sua criação: o Congresso Nacional,
que aprovou um órgão como esse para o bem da sociedade; o ministro
Márcio Tomaz Bastos [ministro
da Justiça à época da criação do CNJ]que pensou e criou o CNJ;
o senador José Jorge, como relator da Emenda Constitucional 45; o
ministro [Nelson] Jobim
que foi o primeiro presidente deste órgão e que deu muita força a
ele, juntamente com seu secretário, hoje deputado, Flávio Dino. O
CNJ é importantíssimo para a sociedade, por isso é uma enorme
satisfação estar aqui em nome da sociedade civil pela Câmara dos
Deputados. Além da relatoria de processos, todos os conselheiros são
integrantes de comissões. A minha é a de Assuntos Legislativos e
Relações Institucionais, que tem muito trabalho em relação ao Pacto
Republicano e o acompanhamento dos projetos de lei no Congresso.
Também estamos sempre atentos aos projetos do CNJ, como as inspeções
que são realizadas pela corregedoria.
ConJur — Quais são os maiores problemas que o CNJ enfrenta?
Marcelo Nobre — Quando
entrei, a visão era muito diferente da que se tem hoje. A maior
parte dos processos era relacionada a concursos, tanto
extrajudiciais como para a magistratura e servidores. Atos de
dirigentes do Judiciário que eram questionados. Chegaram inúmeras
reclamações como essas e trabalhávamos incansavelmente para não
permitir desvios. A segunda composição da qual sou integrante teve
uma atuação muito importante para assegurar a consolidação do CNJ e
as conquistas que foram feitas na primeira. E vou citar apenas duas
de tantas: o nepotismo e o teto. Na segunda composição percebemos
que casos como esses continuavam de forma disfarçada, tanto o
recebimento de vencimentos acima do teto quanto o empego de
parentes. Atuamos firmemente contra esse descumprimento. Hoje, essas
discussões já não ocupam tanto a pauta, porque o CNJ está muito mais
atuante. Poucos são também os processos relacionados a cartórios de
serviços extrajudiciais, porque o Conselho tomou decisões firmes,
moralizando essa atividade, a postura e a conduta de todos. Hoje em
dia, as entidades de classe vêm muito mais ao CNJ, porque sabem que
vão encontrar amparo contra desvios do Judiciário, que são exceção
apesar de existirem. A maioria do Judiciário é composta por gente
decente, honesta, trabalhadora e que tem muito interesse público em
si e vontade de acertar. São pessoas vocacionadas para a função.
ConJur — Há muitos casos contra juízes tramitando no CNJ?
Marcelo Nobre — São
casos que representam um percentual pequeno. O país tem 91
tribunais e uma grande quantidade de magistrados. São 70 milhões de
processos tramitando e só em São Paulo são 3 mil juízes estaduais.
Portanto, o percentual é pequeno, mas na corregedoria, que é o órgão
de apuração inicial no CNJ, há inúmeros processos disciplinares. A
punição de magistrados é relativa a uma pequena parte da
magistratura nacional. A maioria repudia esses poucos que denigrem a
imagem da magistratura séria. O CNJ ajuda a melhorar a imagem da
imensa maioria do Judiciário, que é composta por gente muito séria e
trabalhadora.
ConJur — O CNJ afastou onze magistrados numa semana e isso
era impensável há pouco tempo. É a abertura de uma nova fase no
Judiciário?
Marcelo Nobre — Eu
não vejo dessa forma. Ninguém gostaria de ter de fazer o que a gente
fez, aposentando compulsoriamente dez magistrados do Mato Grosso e o
ex-corregedor-geral do Amazonas. Ninguém aqui tem prazer e
satisfação em ter de adotar esse tipo de conduta. Mas não podemos
fraquejar quanto a isso, diante do que constatamos nos autos e nas
provas. Quando a gente vê, pela provas, que alguém não tem a menor
condição de prestar o serviço público, temos que agir. Não temos
alternativa. Quanto ao caso de dez de uma só vez, é que ali se
engendrou uma participação desses dez numa situação que não tínhamos
como fazer diferente do que fizemos. Infelizmente.
ConJur — À semelhança do que se diz no Executivo, esses
casos do Judiciário estão surgindo devido a uma maior fiscalização,
que veio com a existência do CNJ?
Marcelo Nobre — O
mundo ideal que todo brasileiro almeja é que isso não aconteça em
nenhum poder. E isso não é diferente com todos que fazem parte do
CNJ. Pode ser que com o Conselho, que é um órgão planejador de
políticas públicas do Judiciário, mas também de controle, muitos
casos que não eram investigados passaram a ser. O CNJ também veio
para agir nesse vazio e está demonstrando que realmente era
necessário. Vamos continuar levantando todos os aspectos dos
tribunais, tanto negativos quanto positivos. Não há outra coisa a
fazer com as condutas incompatíveis com o exercício da função senão
aplicar a lei. No caso de Mato Grosso, se os magistrados não
tivessem desviado recursos para a maçonaria, nada disso teria
acontecido.
ConJur — Qual era a relação dos magistrados com a maçonaria,
nesse caso?
Marcelo Nobre — O
presidente do Tribunal de Justiça do Mato Grosso era o grão-mestre
do Mato Grosso. À exceção de dois desembargadores, que também foram
punidos porque receberam dinheiro e deveriam investigar e não
investigaram, os outros oito eram maçons. Eles tinham um braço
financeiro da maçonaria por meio de uma cooperativa de crédito,
coisa que o CNJ já havia proibido. Magistrado não pode participar de
direção desse tipo de entidade. Quando a instituição teve problemas
financeiros, a solução encontrada foi pagar atrasados a magistrados,
desde que eles emprestassem o dinheiro para cobrir o rombo da
cooperativa de crédito da maçonaria. Os valores tinham correção
inimaginável, fora que muitos estavam prescritos e foram pagos. Só
para se ter uma idéia, o filho do presidente do TJ-MT, à época grão
mestre do Mato Grosso, com apenas quatro anos de magistratura
recebeu R$ 620 mil de indenização.
ConJur — E o que eles alegaram?
Marcelo Nobre — Sustentaram
que o dinheiro era legal, porque era referente ao pagamento dos
valores atrasados. Mas na verdade não era. A magistratura recebeu
atrasados, mas sem correção e tudo corretamente. Eles se excederam.
O presidente do TJ recebeu mais de R$1,2 milhão. Além da
irregularidade na correção, alguns ainda eram obrigados a emprestar
para a maçonaria. Era como se eu tivesse dois cargos de confiança,
colocasse duas pessoas da minha confiança que recebem bem, e
combinasse com elas que só assumiriam o cargo se me dessem parte do
salário. O pagamento é legal, mas a partir do momento em que faço
essa exigência de devolução, sendo eu o chefe, isso é ilegal, um
absurdo. Então, o pagamento que é legal se torna ilegal porque deixa
de ter interesse público para se tornar privado. Outro indício de
irregularidade foi o fato de um juiz auxiliar ir à Secretaria da
Fazenda pedir ao secretário para fazer o pagamento direto a ele, sem
passar pelo tribunal. Havia provas fartas no processo.
ConJur — Quais realizações do CNJ o senhor destaca com mais
importantes?
Marcelo Nobre — Na
primeira composição tivemos a questão do nepotismo e a do teto. Na
segunda, avançamos bastante na informatização e digo que sob a
batuta do ministro Gilmar Mendes, o CNJ se tornou outro, cresceu e
botou o dedo na ferida. Ele se incomodou com razão com o estado
policialesco que vivíamos e enfrentou bravamente, como também a
questão do sistema carcerário brasileiro. O preso brasileiro era
esquecido. Para se ter uma ideia, houve um presídio que ficou um ano
sem água e sem luz, tinha capacidade para 500 pessoas e tinha mais
de 1.500. Descobrimos pessoas condenadas a quatro anos, estavam
presas há oito e só foram soltas depois do mutirão. Pessoas doentes
algemadas em macas em lugares inapropriados, até com bichos,
aidéticos nesses lugares. Situações inaceitáveis. Presos do Rio de
Janeiro eram soltos e pediam para ficar porque não tinham roupa para
sair, não tinham para onde ir e não tinham dinheiro para tomar um
ônibus.
ConJur — O projeto Começar de Novo pretende dar
oportunidades aos presos nessas condições, não é?
Marcelo Nobre — Sim.
Precisamos ajudar mais do que só com a libertação. Os egressos
precisam de uma oportunidade de emprego, por isso, o STF e o CNJ
decidiram que um percentual de terceirizados tem de ser de egressos
do sistema prisional. O ministro Gilmar Mendes percorreu o Brasil e
conseguiu que um percentual de terceirizados do Legislativo e do
Executivo seja de egressos. Há projetos de lei nos estados, como em
São Paulo, nesse sentido. O líder e presidente do PTB, deputado
Campos Machado, que apresentou um projeto de lei em São Paulo
enaltece o projeto do CNJ e diz que isso tem de virar lei, não tem
de ficar à vontade do administrador que chega ou que sai. Voltando à
questão das realizações do CNJ, a informatização deu um grande
passo. É um caminho sem volta. Quando cheguei aqui, foi difícil me
adaptar ao processo eletrônico, porque estava acostumado ao processo
físico. Mas, me adaptei. Todos têm que se adaptar porque é um
caminho sem volta e só há ganhos.
ConJur — Por que o CNJ tomou a decisão de tornar vagos mais
de sete mil cartórios extrajudiciais?
Marcelo Nobre — Nos
estados as corregedorias já deviam ter feito isso. Com um estudo e a
percepção de que não faziam por inúmeras razões, o CNJ precisou
botar o dedo nessa ferida. Depois de levantarmos dados de todos os
estados, com a cautela necessária, determinamos que os cartórios
ocupados por pessoas na interinidade, não concursadas, deveriam se
tornar vagos. É inadmissível essa situação, que já deveria ter sido
resolvida pelos tribunais estaduais. Os cartorários recorreram ao
Supremo e conseguiram uma liminar porque induziram o ministro Cezar
Peluso ao erro. Quando o ministro recebeu as informações prestadas
pelo CNJ, revogou a liminar, porque nós estamos corretos. Quem não é
concursado só pode ficar no seu cartório até o preenchimento por
concurso público. Como os tribunais não colocavam determinados
cartórios como vagos, eles não entravam nos concursos. Hoje, todos
os cartórios que são dirigidos por pessoas não concursadas estão
vagos e vão entrar nos próximos concursos para serem preenchidos por
alguém que preste concurso e seja aprovado.
ConJur — E a informatização das Varas de Execução Criminal,
como surgiu essa ideia?
Marcelo Nobre — Com
os mutirões carcerários constatou-se as varas de execução criminal
também eram responsáveis pelos presos muitas vezes ficarem presos
mais tempo do que deveriam. São milhares de processos, sem controle
informatizado, o que torna quase impossível o controle. Daí a
importância de tornar virtual o acervo dessas varas. O computador
alerta o juiz sobre o cumprimento da pena do preso. Eu espero, de
coração, que o CNJ, na gestão do ministro Cezar Peluso, continue
essas questões que são importantíssimas.
ConJur — Quais dessas realizações estão mais ligadas à sua
atuação no CNJ e o senhor teve participação direta?
Marcelo Nobre — Em
todas elas eu tive participação. No programa Conciliar
é Legal, que começou na primeira gestão, participei da sua
divulgação pelo país. Todos os conselheiros têm participação direta
nos projetos. Não há possibilidade de funcionamento dos projetos sem
a participação direta dos conselheiros do CNJ.
ConJur — Com qual desses programas do CNJ o senhor mais se
identifica?
Marcelo Nobre — A
questão carcerária me toca muito. O mutirão carcerário é um trabalho
de alcance inimaginável para o país. Nunca se pensou e nunca se fez
nada com relação a essa questão. Esse trabalho do CNJ foi premiado,
ganhamos prêmio com ele. Uma questão que eu gostaria que fosse
pensada se refere à educação de todos os presos, sobre a
possibilidade de fornecer educação à distância, para que tivessem a
oportunidade de vislumbrar um conhecimento e saírem de lá melhor do
que entraram, não pior. E quando sair, que saia com oportunidade.
Com isso, ele ganha e é melhor para a sociedade. O aperfeiçoamento
dos magistrados e servidores do Brasil também deve entrar na pauta.
O CNJ, como órgão planejador do Judiciário brasileiro, deveria ter
um Universidade Corporativa do Judiciário. Existem escolas de
formação ligadas ao STJ ou ao TST, mas entendo que a instituição de
educação deveria ficar no órgão de planejamento do Judiciário e que
houvesse filiais em todos os tribunais. Hoje, temos uma distorção.
Muitos juízes não entendem as resoluções e decisões do CNJ porque já
a aplicam, já fazem o que foi decidido. Lêem uma resolução do CNJ e
são críticos, dizem que é um absurdo, que é chover no molhado. Mas é
preciso perceber que a decisão é nacional, vale para os 90
tribunais. É preciso criar uma consciência nacional.
ConJur — O CNJ tem decisões monocráticas?
Marcelo Nobre — Temos
decisões monocráticas nos processos porque inserimos no regimento
interno o seguinte: matérias já pacificadas pelo Conselho podem ser
decididas monocraticamente desde que mencionados os processos que já
foram julgados. Outra possibilidade é quando a questão é individual,
de interesse particular e privado. Pode-se determinar o
arquivamento. Quando a questão foge da competência do CNJ, também
cabe decisão monocrática. Se as pessoas não se conformarem, podem
recorrer e aí o processo é levado ao Plenário e todos decidem se o
relator acertou ou não
ConJur — Existem resistências à atuação do CNJ?
Marcelo Nobre — Ainda
existe, mas diminuiu demais. Hoje, o Judiciário brasileiro percebeu
que o CNJ não veio como caça às bruxas, não veio para perseguir
ninguém. Ele veio para planejar o Judiciário do futuro de acordo com
o que a sociedade brasileira espera de um órgão extraordinário como
esse.
ConJur — A composição com representantes de todos os setores
do sistema judicial facilita quebrar essa resistência?
Marcelo Nobre — É
um facilitador, apesar de ainda ouvirmos muitos críticos reclamarem
que a maioria dos integrantes é da magistratura. Internamente, esse
não é o sentimento que impera. Não há corporativismo, muito pelo
contrário. O fato de cada um vir de um lugar diferente traz um
extraordinário aprendizado. Convivo com pessoas com vivências
totalmente diferentes da minha. Esse aprendizado conjunto do
colegiado é muito benéfico.
ConJur — O CNJ hoje não encontra mais dificuldades para
atuar?
Marcelo Nobre — Essas
dificuldades existiram, hoje não existem mais. Tínhamos resistências
com os conservadores, que pensavam que lutavam contra o CNJ, mas na
verdade lutavam contra a sociedade brasileira e contra uma nova
mentalidade no país. Eles achavam que esse órgão representava algo
que não era o anseio popular e essas pessoas perceberam que se
equivocaram, tiveram que voltar atrás. Todo mundo sabe que o CNJ
está consolidado cada dia mais, que veio para ficar e que não veio
para punir nem divulgar mazelas do Poder Judiciário. Ele veio para
planejar política pública do Judiciário nacional. É um órgão
visionário, criado para olhar o futuro e enxergar o Judiciário lá na
frente como um serviço público de primeira qualidade para o
jurisdicionado e para a sociedade brasileira. Essas resistências que
ainda tínhamos estão quase que todas já vencidas.
ConJur — O senhor acha que a atuação do CNJ é considerada
rigorosa nos tribunais?
Marcelo Nobre — O
CNJ está pacificando os conflitos administrativos do Judiciário com
muito êxito. Antes não havia um órgão para padronizar nacionalmente
os procedimentos. Hoje existe. Aqui é que se decide como deve ser o
Judiciário nacional no futuro. O CNJ era um antes do ministro Gilmar
Mendes e agora ao final do mandato do ministro Gilmar é outro, com
todas as críticas que ele recebe. Isso é inegável. Mas temos muitas
coisas pela frente. Tenho levantado uma questão que tem dado muita
discussão, que é a competência absoluta do CNJ. Para mim, com a
aprovação da EC 45, o CNJ passou a ter competência absoluta das
questões administrativas do Judiciário nacional. E assim temos agido
e decidido. Por isso, temos que começar a discutir se um juiz de
primeira instância ou um tribunal pode decidir questões
administrativas de forma diferente do CNJ. Pode um juiz de primeira
instância ou um tribunal, através de um despacho jurisdicional,
deixar de cumprir uma resolução do CNJ? Entendo que absolutamente
não.
ConJur — Alguns críticos dizem que dessa forma o CNJ estaria
retirando do Judiciário a apreciação de determinadas questões.
Marcelo Nobre — Isso
não é verdade, porque o CNJ está sob o controle do STF como em
muitos casos tem havido. Não há uma supressão de apreciação do
Judiciário, pelo contrário. Agora, o constituinte deu competência
absoluta ao CNJ, é ele que decide e dá as diretrizes administrativas
para o Judiciário nacional e assim deve ser cumprido. O CNJ é uma
corte criada pela constituição para decidir os conflitos
administrativos do Judiciário nacional e planejar o futuro do
Judiciário nacional. Acho que já é a hora de começar a discutir
isso.
ConJur — Que falha o senhor apontaria em relação aos
servidores?
Marcelo Nobre — Os
Tribunais Regionais Eleitorais não têm quadro efetivo de servidores.
São cedidos, ficam adequando, se há momentos de crise, muita coisa
vem para o CNJ. Essa é uma questão que precisa ser pensada. A
Justiça Eleitoral precisa ter um quadro compatível com suas
necessidades. Talvez seja preciso pensar em abrir concurso para a
Justiça Eleitoral com quadro efetivo dela. Nós temos recebido muitas
questões eleitorais de servidores e acho que o CNJ deve se debruçar
sobre essa questão.
Fonte: Conjur